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Entrevista do ministro das Relações Exteriores, embaixador Ernesto Araújo, ao jornal indiano The Hindu

“Presidente Bolsonaro e primeiro-ministro Modi compartilham opiniões sobre a ideia de uma nação”
(25/01/2020)*

Suhasini Haidar

 

Espera-se que a Índia e o Brasil assinem uma série de acordos, que incluem um plano de ação de Parceria Estratégica e um Tratado de Investimento Bilateral, quando o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, se reunir com o primeiro-ministro Narendra Modi no sábado. Em uma entrevista, o ministro das Relações Exteriores brasileiro, Ernesto Araújo, que faz parte da delegação, afirma que os dois países compartilham mais que apenas uma visão de mundo em comum; seus líderes também compartilham valores relacionados ao nacionalismo e à soberania.

 

– Quais são suas esperanças e expectativas para a visita do presidente Bolsonaro à Índia como principal convidado do Dia da República?

– O Brasil considera a Índia um dos principais parceiros em nossa estratégia internacionale na nossa política externa como um todo. Nossos países têm valores em comum. O Brasil e a Índia são duas das maiores democracias do mundo. Há também uma con-vergência entre nossa visão de mundo e a do primeiro-ministro Modi, de que se deve construir uma nação fiel a seus valores e tradições, orgulhosa de si mesma.

Cremos que essa é a base para uma economia próspera. Muitos em todo o mundo pensam que há uma incompatibilidade entre ter uma economia eficiente, liberal e produtiva e ser uma nação fiel aos seus valores, uma nação orgânica. Cremos no oposto; cremos que essas coisas são compatíveis.

 

– A Índia e o Brasil já compartilharam algumas posturas em política externa: com relação à autonomia estratégica, à reforma do CSNU, um equilíbrio com os EUA, distância da Iniciativa do Cinturão e Rota da China (Belt and Road Initiative), etc. Este é o momento de uma plataforma comum, projetando uma visão de mundo mais centrada no Sul-Sul?

– Eu não a chamaria exatamente de uma visão de mundo “centrada no Sul-Sul”. Acreditamos que, por meio de uma relação profunda, nossos países possam avançar suas posições em todos os fóruns internacionais, nas Nações Unidas e no Conselho de Segurança, assim como em outras instâncias. Uma excelente relação com os EUA – algo que a Índia também alcançou – é crucial para a projeção internacional a que aspiramos para o Brasil.

Doutrinas anteriores em nossa política externa previam uma projeção internacional para o Brasil em oposição aos Estados Unidos, ou desconsiderando o papel que os EUA poderiam ter em nossa parceria. Nós mudamos essa abordagem.

Também estamos aprofundando nossas relações com a China, um parceiro de grande importância para a economia brasileira, acima de tudo como um mercado para nossa exportação agrícola. Com relação à Iniciativa do Cinturão e Roda, acreditamos que a grande extensão de investimentos chineses valiosos no Brasil não precisa nos amarrar a um marco abrangente como o dessa iniciativa para manter uma relação produtiva com a China.

 

– Tanto o Sr. Bolsonaro quanto o Sr. Modi têm recebido algumas críticas internacionais em razão de políticas religiosas e de suas visões de cunho nacionalista...

– O presidente Bolsonaro e o primeiro-ministro Modi compartilham uma visão parecida com relação à soberania e à sua ideia de nação. Ambos os líderes avaliaram o conceito de nacionalidade. Eu acredito que esses valores comuns criam um solo ainda mais fértil para o que podemos realizar junto com a Índia, de uma forma que nunca antes conseguimos. Essa visita oficial é o primeiro passo em direção a essa meta: temos a oportunidade de assinar uma quantidade sem precedentes de acordos – não somente em quantidade, mas também em qualidade – em muitos campos diferentes. Também podemos sentir o entusiasmo de ambos os lados quanto à nossa cooperação e especialmente em relação ao Plano de Ação para fortalecer a Parceria Estratégica.

 

– Um ponto de divergência tem sido a situação na Venezuela, na qual Nova Delhi e Brasília reconhecem diferentes governos. Durante a visita, seu governo tentaria convencer o governo indiano a retirar o apoio ao presidente Maduro?

– O governo brasileiro espera um intercâmbio de opiniões com as autoridades indianas sobre o cenário regional de cada país. Não é nossa intenção persuadir a Índia a lidar com essa questão de uma maneira ou de outra. Somente esperamos que a Índia veja a situação com novos olhos. Porque a população enfrenta um regime despótico do pior tipo, que deliberadamente destruiu a economia e as instituições do país.

O Brasil acredita que haja esperança de restaurar a democracia na Venezuela e impedir o atual genocídio de sua população, por meio do governo legítimo do presidente Juan Guaidó.

 

– O senhor apresentou publicamente ceticismo quanto à ciência do clima, especial-mente no contexto dos incêndios na Amazônia no ano passado. Que tipo de discussões a respeito das negociações sobre mudanças climáticas o senhor espera ter com a Índia?

– O próprio presidente Bolsonaro, outras autoridades brasileiras e eu tentamos demonstrar que a imagem inicialmente apresentada por certos líderes não era correta. Deve-se ter em mente que a pasta ambiental, especialmente o suposto desmatamento da Amazônia, infelizmente oculta agendas escondidas de certos governos e diversas ONGs prejudiciais ao agronegócio brasileiro, cuja competitividade e compromisso com a sustentabilidade estão

acima de qualquer dúvida, à mostra para que todos vejam. Em uma democracia, precisamos discutir e escrutar todas as abordagens científicas a cada questão, e há vários especialistas que apresentam dúvidas razoáveis quanto à origem humana do aquecimento global. Eles devem ser ouvidos, não demonizados. Esse curso de ação não significa desconsiderar compromissos internacionais. O presidente Bolsonaro prometeu manter a participação multilateral brasileira nessa área essencial. O Brasil, como a Índia, é um importante ator nas questões ambientais.

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* Tradução não oficial da entrevista, publicada em inglês no site do Ministérios das Relações Exteriores.

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